terça-feira, 19 de abril de 2011

África - Racismo, preconceito e diáspora


Kabengele Munanga
Realizada em: 11/9/2008

Atuação: Antropólogo, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e membro de corpo editorial das revistas: África (São Paulo), Tricontinental – Revista PEC-G (UFPB), Humanitas (PUCCAMP) e Revista Digital Intolerância. Atua principalmente nos temas: mestiçagem, identidade nacional, Identidade Negra.

Obras: MUNANGA, Kabengele; GOMES, N. L. Para entender o negro no Brasil de hoje. In: Ação Educativa (Org.). Viver, Aprender Unificado, 7a. e 8a. série. 2 ed. São Paulo: Global Editora, 2008, p. 35-88; MUNANGA, Kabengele. Política de ação afirmativa no Brasil: Consenso e desacordo na política de cotas na universidade pública. In: Maxim Repetto; Leandro Roberto Neves; Maria Luiza fernandes (Org.). Universidade Inconclusa: os desafios da desigualdade. Boa Vista: Editora da UFRR, 2008, p. 13-31; MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. Brasília: Ministério da Educação, 2005.
Salto – Professor,  como o senhor definiria o racismo?Kabengele Munanga - Em primeiro lugar, eu gostaria de deixar claro que há uma confusão geral entre alguns termos. Há pessoas que confundem preconceito, discriminação racial e racismo. Os preconceitos, que são pré-julgamentos sobre o outro, sobre outros povos, sobre outras culturas, que são opiniões às vezes formalizadas, às vezes não formalizadas, acompanhadas de afetividade, são diferentes da discriminação. A discriminação é expressa pelos comportamentos observáveis, que podem ser censurados e até punidos pela lei, são atitudes que não são invisíveis.
Outra coisa é um "derivado" que é chamado de racismo, que praticamente é todo um sistema de dominação que está por trás disso, todo um sistema de dominação sustentado por um discurso que, às vezes, tem conteúdo de uma ciência, por ser uma pseudociência, uma doutrina que existe justamente para justificar a dominação, a exploração do outro. Esse discurso legitimador foi considerado, no século XVIII e XIX, como uma ciência da época, uma ciência chamada de raciologia, mas que tem vários nomes. Mas se olharmos bem, na história da humanidade, esse sistema é mais antigo do que a modernidade ocidental. Nós aprendemos que isso começa com a modernidade ocidental, mas é muito mais antigo, podemos colocar na origem dos contatos entre os povos, quando os europeus começaram a imigrar e montaram seus sistemas de dominação. Alguns chamam de ideologia esse sistema de dominação, não o sistema como tal, mas o discurso que acompanha esse sistema de dominação e que legitima isso.
Salto – Como o senhor definiria a diáspora africana?Kabengele Munanga – Com relação à diáspora africana, podemos situá-la em três momentos: a partir da ideia de que a África é o berço da humanidade, os africanos saíram do continente africano para povoar os demais continentes, isso já faz parte da diáspora africana. Saíram livremente, voluntariamente, e todos, o resto da humanidade, e mesmo aqueles que voltaram para a África e os que invadiram a África, são todos descendentes de africanos. Isso faz parte dessa diáspora mais antiga, que é mais conhecida como "o berço da humanidade". A segunda diáspora é o produto resultante do tráfico negreiro. Tráfico negreiro que levou africanos para todos os cantos do mundo, para o continente asiático, para o continente americano, e para a Europa. E nessa segunda diáspora os africanos não saíram voluntariamente, foram sequestrados, amarrados, transportados e deportados, não podemos considerá-los como imigrantes porque eles não sabiam nem por onde iam, nem para onde estavam sendo levados, nem por que motivo. Foi por meio dessa grande diáspora que as Américas se desenvolveram, que a Europa se desenvolveu, com a mão de obra africana, num mundo em que a tecnologia estava no ponto em que estamos hoje, onde a produção e o desenvolvimento precisam do trabalho humano. Foi graças a essa mão de obra escravizada que nós, os africanos, construímos as riquezas dos países, como o Brasil. A terceira diáspora é a que data de alguns anos antes das independências africanas, os africanos tiveram que sair obrigados pelas condições de vida dos seus países, condições de vida que foram deixadas pelos colonizadores, depois de anos de colonização. A colonização não aconteceu como se esperava, e seu desenvolvimento foi feito com dirigentes fascistas sanguinários, sustentados pelos próprios europeus que colonizaram a África. Alguns fugiram dessas condições de vida, das guerras, para encontrar melhores condições de vida na Europa. Mesmo os intelectuais africanos fugiram da África porque não encontraram melhores condições de produtividade intelectual, e muitas vezes por causa das questões políticas foram para outros países. Os Estados Unidos, por exemplo, é um lugar onde  há grandes intelectuais africanos. São africanos que, desde o nascimento, investiram em educação, os pais educaram, alimentaram, pagaram a escola, pagaram a faculdade e, de repente, os americanos os recebem de mão beijada, sem terem investido nem um tostão. São encontradas literaturas africanas nas grandes universidades africanas, nos grandes escritórios africanos, isso é a terceira fase da diáspora africana. Nós temos na África também uma nova diáspora africana: muitos imigrantes dos países africanos em guerra são encontrados, inclusive aqui no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outras cidades, alguns raros intelectuais. Mas a grande diáspora africana está nos países ocidentais.